LULA, O PERSONAGEM

Eu estava sentado e ia ligar o computador quando o celular me avisou que havia algo de novo, era o WhatsApp. Mensagem sem foto, sem assinatura e originária de telefone desconhecido: “Nélio, estou à sua espera no Bar Tal, na Rua Vinicius de Morais, Ipanema”. Estamos acostumados com mensagens ameaçadoras, por isso não me preocupei, liguei o computador e acessei a planilha na qual iria trabalhar. Nova mensagem: “Nélio, responda-me, não vou ficar o resto do dia esperando”. Resolvi responder: “Não vou dar atenção a alguém que não mostra o rosto e não se identifica; desista”. Não se deu por vencido: “Tenho certeza de que você virá. Li o seu post ― Desconstruindo Lula ― e intuí que está querendo escrever mais sobre o tema. Quer munição? Vou provar que o Lula não tem carisma, ao contrário do que muita gente afirma”. Desta vez ele assinou: “Velho”. Fui!
O Velho estava em uma mesa na calçada e logo que me viu levantou a mão direita, que segurava uma tulipa de chope, e, com a outra mão, indicou a cadeira onde deveria me acomodar. Cumprimentei-o e disse:
― Doze anos se passaram e você não mudou nada, a mesma barba branca, o cabelo, também branco, do mesmo jeito, parece que não envelhece.
― Tem razão, eu não envelheço, mas, por outro lado, você está bem mais envelhecido.
Esse era realmente o Velho que havia conhecido há doze anos, não só na aparência, como também na falta de tato.
― Velho, disponho apenas de duas horas para liquidar o assunto.
― Também tenho pressa, vou direto ao assunto. Essa coisa de que o Lula tem carisma é a maior balela, alguém disse isso algum dia e os menos atentos repetem sem maiores avaliações. Quem tem carisma já nasceu com ele, não existe loja onde se possa comprar carisma. Já imaginou alguém se dirigir ao balcão da loja e dizer para o balconista: “Por favor, eu quero um milhão de reais de carisma”. Outro com mais recursos compraria três milhões de carisma. E o pessoal que se beneficiou do esquema que sangrou a Petrobras? Sem dúvida os participantes da quadrilha seriam os seres mais carismáticos do Brasil. Dinheiro não faltaria.
― O Lula ganhou duas eleições seguidas. ― Argumentei.
― Sei disso, mas antes perdeu quatro. A primeira, em 1982, para o Franco Montoro ao Governo de São Paulo e depois se sucederam três derrotas para a Presidência da República, nenhum candidato carismático perde quatro eleições em seguida. Em 1989 concorreu pela primeira vez à Presidência da República e perdeu no segundo turno para o Collor, outro calouro almejando o cargo. Collor quando começou a campanha tinha traço nas pesquisas, foi subindo e conseguiu a oportunidade de enfrentar o Lula no embate decisivo e o que o Lula conseguiu? Foi triturado no último debate.
O Velho esvaziou a tulipa de um só gole e pediu uma nova ao garçom. Perguntou se eu queria outra tulipa, eu fiz sinal negativo com a cabeça e ele continuou:
― Nova eleição presidencial em 1994, adversário Fernando Henrique. Lula foi para casa no primeiro turno. No primeiro turno… haja carisma… Não se deu por vencido e, novamente, em 1998, voltou a enfrentar Fernando Henrique e o que aconteceu? Perdeu novamente no primeiro turno.
― Bem… depois disso, em 2002 e em 2006 conseguiu se eleger. Por que venceu?
― Comecemos por 2002. O segundo mandato de Fernando Henrique terminou de forma melancólica, dificilmente qualquer candidato do PSDB seria eleito. Esse quadro, somado ao desgaste exacerbado da classe política de um modo geral, acabou jogando a Presidência da República no colo do PT, afinal era o partido que trazia um discurso de moralização da política (?), o que ia ao encontro dos anseios do povo. Se ao invés do Lula fosse outro candidato como, por exemplo, José Dirceu, o partido faria o Presidente da República da mesma forma. Mesmo assim e com toda a antipatia do opositor José Serra houve segundo turno.
― E a reeleição?
― Nós já concordamos que não há dinheiro que compre o carisma, mas dinheiro pode criar um personagem e muito dinheiro pode direcionar a sua aplicação no sentido de carrear votos. Um esquema foi montado para o PT se perpetuar no poder e a Operação Lava-Jato tem mostrado isso. Foi construído o Personagem Lula: o Lula vestindo ternos de grife, barba muito bem aparada, cabelo em ordem, gestos e palavras treinados por marqueteiros ― o Lula paz e amor ―, nada que lembrasse o Lula dos antigos comícios do sindicato e a sua agressividade. O Lula verdadeiro, sem maquiagem, o do palavrão, o do chamamento dos seguidores para o embate nas ruas, sem produção e sem direção, sem que as palavras fossem colocadas em sua boca, nós revimos agora, depois da condução coercitiva. Muito dinheiro levou a campanha aos recantos mais pobres e longínquos e distribuiu benesses para muita gente e, ainda assim, em 2006, venceu novamente segundo turno.
De repente, o Velho levantou-se e disse:
― Fui. Dei de bandeja o seu novo post, pode usá-lo integralmente. Ah… ia esquecendo, paga a conta por favor.
E lá se foi o Velho. Se vou reencontrá-lo, não sei. Na volta para casa, ainda envolvido com a conversa, imaginei um teatro vazio, a cortina fechada, a plateia já voltando aos lares, os atores desolados nas coxias após receberem vaias monumentais, a claque, paga para aplaudir, decepcionada e chorando na rua, enfim, o caos.
Como havia gravado a conversa com o Velho, ao chegar em casa a transcrevi “ipsis litteris”. Dou aos amigos de presente.

9 comentários sobre “LULA, O PERSONAGEM

  1. O Velho é um personagem fictícIo, não é? Se fosse real eu queria agradecê-lo por ter me convencido de que o carisma do lula deve ser mais um “caô” do marqueteiro João Santana…

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    1. O Velho aparece quando quer. Já havia me socorrido quando escrevi um capítulo do livro dos 50 anos da Turma Dedo. A percepção quanto a sua existência deixo com o leitor. Estamos juntos, Camara. Um grande abraço.

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  2. Nélio. Sua criatividade e inspiração cada vez melhores. Já o conhecia do Livro da Turma Dedo… Um abração.

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