A INCOERÊNCIA DO SER HUMANO

Recebi mensagem do Velho para encontrá-lo em um bar de Ipanema, o mesmo da última vez. Quando cheguei, ele estava, como sempre, empunhando uma tulipa de chope e convidou-me para sentar ao seu lado. Dirigiu-se ao garçom: ― Salvador, traz, por favor, uma tulipa para o meu amigo. ― Voltou-se para mim:
― Experimenta o pastel, acabou de chegar. É de camarão e está ótimo. ― E mudando de assunto: ― Acredita que eu o vi na passeata de domingo em Copacabana?
― Está brincando, não que seja impossível, mas seria incrível coincidência. Havia uma multidão.
― O seu amigo não portava um chapéu? Você não vestia camisa branca com listas horizontais e bermuda azul? Eu estava em um dos carros de som e vi vocês cantando o Hino Nacional; foi emocionante, não foi?
― É verdade, deu para arrepiar. Curioso, a probabilidade de me localizar era pequena, seria mais fácil vê-lo no carro de som, entretanto, pela descrição, você me viu mesmo.
Como se não tivesse prestado atenção ao que falei, ele mudou de assunto:
― Nélio, estou apaixonado, irremediavelmente apaixonado, penso nela o dia inteiro. Você vai conhecer a garota hoje, ela passa nesta calçada todos os dias no mesmo horário em direção à praia e eu fico esperando até que faça o caminho de volta para casa. Aceno e ela responde com um sorriso. Hoje, quando ela passar por aqui, vou abandona-lo para acompanha-la até a praia. Você vai concordar comigo, é a mulher mais linda do mundo. Não me sai da cabeça.
― Velho, não estou interessado nessa conversa. Quero explorar sua sapiência para tentar entender o que vem acontecendo. Desde criança, e lá se vão algumas décadas, ouço conversas acaloradas sobre política e, mesmo com diferenças partidárias, o brasileiro sempre foi uníssono no que concerne à corrupção no meio político, nesse particular, posso afiançar que não concordo com a assertiva de que todo político é ladrão, não me agradam tais generalizações, mas essa posição não é importante para o meu questionamento. Nesse clamor geral era comum ouvirmos frases do tipo: A corrupção na política não acaba porque só o pobre é preso, NUNCA a justiça vai alcançar o rico, o político, enfim, o chamado bandido do “colarinho branco”. Eu imaginava que se algum dia aparecesse um “maluco”, ou alguns “malucos” (bem… continuemos no plural), empenhados para que não fosse perpetuado tamanho absurdo, que acreditassem que o Brasil poderia ser “reinventado” e iniciassem um grande movimento com a intenção de enredar os poderosos que sangram os cofres públicos, todo o povo brasileiro promoveria uma festa maior que o Carnaval, maior que a comemoração de um Campeonato Mundial de Futebol, em suma, seria A FESTA DE TODA A NAÇÃO. Para minha surpresa, apesar de a maioria estar apoiando a Lava Jato, há um grupo que, ignorando as evidências, bombardeia a operação com argumentos como: “as gravações são ilegais, não deveriam ser divulgadas, tudo isso é manobra da oposição e das elites”. Não estou defendendo que sejam cometidas ilegalidades para que as investigações cheguem a um bom termo, mas não devemos ignorar o foco, isto é, o ponto central, que é o desbaratamento de uma quadrilha que deixou o mundo perplexo diante da magnitude do roubo e do envolvimento da cúpula do governo. Não tenho conhecimento para fazer uma análise jurídica quanto à validade das escutas e da divulgação das mesmas, no entanto acredito que haja um senso comum de que os atos dos homens públicos devam ser compartilhados com o povo para que possamos avaliar o caráter de todos. As escutas telefônicas deixaram alguns políticos “nus”, mostraram-nos que eles, até então, eram apenas personagens de uma comédia de extremo mau gosto e que sem os holofotes eram as antíteses dos seus personagens. Então, Velho, esclareça-me: Por que existem pessoas que se voltam contra uma ação que vem ao encontro daquilo que sempre foi almejado pelo povo brasileiro? Qual o motivo? Por que mudaram de opinião?
O Velho não respondeu de pronto, esvaziou a tulipa com um só gole, pediu outra ao Salvador, comeu um pastel; parecia ganhar tempo pensando, finalmente falou pausadamente:
― Seu discurso foi bonito, mas tem alguns tropeços, primeiro porque mostra angústia, inconformismo com a irracionalidade de um ser que se diz racional. O homem é imperfeito, é cruel, é teimoso, é egoísta, é tendencioso e apaixonado, não adianta raciocinar com o homem ideal. Talvez, quando os vírus que nos assustam venham a exterminar com a humanidade, surja um novo ciclo de vida e que, depois de milhões de anos de evolução, o homem idealizado, perfeito, venha a habitar nosso planeta; enquanto não acontece, precisamos conviver com esse ser contraditório, incoerente. Outro erro está na sua pergunta: “Qual o motivo?” Não existe um motivo para as pessoas que estão contra as investigações, existem alguns motivos, cada grupo tem a sua motivação própria. Por exemplo, os que ocupam funções de confiança, como os ministros e outros cargos comissionados querem que nada aconteça com o governo, pois, assim, conservam os cargos. Outro grupo é o das entidades de classe, dos movimentos sociais e outros que recebem benesses do governo; o grupo não quer arriscar o que já conquistou. Estou resumindo porque já está quase no horário da garota ir para a praia. Não posso me estender. Os investigados na Operação Lava Jato, alguns pertencem aos grupos citados, outros ao Legislativo, etc, esses, então, não querem nem ouvir falar na Polícia Federal, no Ministério Público e muito menos no Juiz Sérgio Moro e devem estar utilizando todos os trunfos que têm nas mãos para impedir que a Operação prossiga. Se não fosse a divulgação das conversas teriam mais chance de conseguir suas metas. A divulgação das conversas protegeu sim a Operação. Na realidade, os grupos têm discursos parecidos. O que poderiam dizer contra as provas contundentes? Contra fatos não há argumentos, saem pela tangente, não se justificam, apenas contra atacam. Para nós, que a cada dia nos surpreendemos com novos fatos, está tudo claro. Não temos poder de condenação legal, mas temos as nossas opiniões e podemos, em face dessas opiniões, fazer as nossas condenações. E como elas acontecem? Nas eleições e nas pesquisas de opinião.
― Muito bem, Velho, vou usar as suas armas: Palmas, palmas, brilhante discurso, mas não é definitivo. Conheço pessoas que não pertencem aos grupos citados, que não perdem nada palpável com a não condenação dos membros da quadrilha e que defendem o governo. E aí?
― Tem razão, essa é a turma mais complicada porque, como você diz, não usufrui de ganhos materiais e, sendo assim, temos que entrar no campo subjetivo. Você deve lembrar, pois é das antigas, do termo “Inocentes Úteis”, termo fora de uso, mas podemos usá-lo. Todos nós sabemos que na época da Guerra Fria havia uma verdadeira lavagem cerebral por parte da esquerda (não gosto dos termos esquerda e direita, mas acabamos caindo na armadilha, vamos em frente). Havia um número significativo de professores, principalmente nas faculdades, que procuravam cooptar alunos para adotarem suas ideias, o que não era difícil, pois o discurso é fácil e motivador. Quem pode ser contrário à melhora de vida dos mais pobres? Quem pode ser contrário às oportunidades iguais para todos? Todos somos favoráveis a esses anseios, mas, sabidamente, políticos espertos, que se intitulam de esquerda usaram e usam esses discursos para enredar o povo. Aquela história “nós contra eles”, “os trabalhadores contra as elites” e, assim, o imaginário está repleto de verdades insofismáveis, tais como, “quem é de esquerda é bom”, “ser de esquerda é chique”, e mais “ser de esquerda é ser politizado e inteligente”, em suma, quem não é de esquerda é alienado. Está vendo, o cardápio atende a todas as classes sociais. Muitos assimilaram isso como verdade. Grandes atingidos, entre outros, foram os artistas e os professores. Por algum tempo não se via um artista se pronunciar como contrário à esquerda; os que eram contrários, escondiam. Os tempos mudaram, poderia me alongar nesse filão, mas fugiria ao nosso propósito, então vou citar apenas um fato emblemático que representa essa mudança de que falei: a queda do Muro de Berlim. Com esse evento muitos seguidores da esquerda abandonaram o barco, o que é normal, tendo em vista que podemos nos enganar e é saudável que reconheçamos os erros e tracemos novos rumos. Nós, atualmente, constantemente ouvimos nas redes sociais pronunciamentos importantes de artistas contrários ao atual governo de esquerda (?). Essa nossa conversa está ficando extensa e já vi que está gravando. Aconselho a não transcrever toda a conversa. Ninguém lê textos enormes.
― Não, não… Continue, estou gostando.
― O que me espanta é que muitos professores continuam a apoiar o governo. Já temos mais de treze anos sob as azas do PT e o ensino piorou nesse período. O Brasil necessita de um plano macro para o ensino, isso é fundamental, o investimento no ensino deve ser prioritário, mas como esperar algum planejamento de governos tão incompetentes. Os professores precisam ser valorizados, é necessário que tenham salários dignos, é necessário que tenham segurança para exercer a profissão. Estamos com uma geração perdida nas comunidades, as crianças sem escolas, arregimentadas pelos bandidos, sem que o poder público se emocione. ― Interrompeu a fala, tomou o chope, comeu um pastel e prosseguiu ― Estava com a boca seca, muito blá, blá, blá… A impressão que se tem é de que, durante a doutrinação, implantaram um chip no cérebro desses que não acordaram para a realidade e esse chip responde automaticamente aos questionamentos com frases prontas. Não importa que todas as evidências tenham sido colocadas na mesa para análise. Não sei se você notou, quando eles não têm mais argumentos para defesa dos ídolos corruptos atacam com uma frase gravada no chip: “É o sistema”. Sabe o que querem dizer com isso, que os seus ídolos fraquejaram porque o “sistema” em vigor corrompe a todos, o que tem que mudar é o “sistema”, isto é, trocar pelo regime comunista.
― Velho, eu sei que você está com pressa, então me responda: O Lula vai assumir o ministério? A Presidente vai sofrer impeachment? O Lula e familiares vão ser presos? Políticos envolvidos na Lava Jato vão ser alcançados?
― Você está achando que tenho bola de cristal, mas não vou fugir às perguntas. Vamos às minhas apostas: O STM vai liberar o Lula para assumir o ministério, se não for preso antes. Vai haver impeachment, a não ser que a presidente renuncie. Lula e familiares vão ser presos. Os políticos vão ser alcançados pela justiça. Bem, é o que eu acho. Para, para, para… aí vem a minha musa, que tal? ― Na mesa ao lado estava um casal com bastante idade. A senhora lembrava as matriarcas de novelas ou filmes de época, toda empertigada e fisionomia de quem nunca sorri e o marido tinha um aspecto submisso. O Velho naquele seu jeitão segurou o braço do senhor e perguntou apontando para a garota: ― O que acha, não é linda? ― O senhor olhou para a matriarca, que estava mais empertigada ainda, e baixou a cabeça.
O Velho disse para eu pagar a conta, como sempre, e foi em direção à garota. Ele fez uma espécie de continência, ela sorriu, entregou-lhe a cadeira de praia e foram os dois conversando alegremente. Pelo visto, o Velho não se enganara. Para diminuir o clima desagradável com os vizinhos de mesa, dirigi-me à matriarca e disse:
― Por favor, desculpe o meu amigo, ele é brincalhão, mas é boa pessoa.
― O seu amigo parece maluco, eu o vejo aqui vez por outra e o senhor deve ser maluco, também, já que é amigo dele…
É, sobrou para mim. Paguei a conta e FUI.

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