Impeachment or not Impeachment

O trânsito estava horrível, não podemos mais estabelecer horários precisos para os encontros. Manifestantes por toda a parte interrompem ruas com protestos por não receberem do Estado os salários que lhes são devidos. Protestos justos, por sinal. Já chegamos ao fundo do poço. É surreal, as pessoas trabalham, cumprem com suas obrigações, mas não recebem salários. Foi com esse espírito de revolta que cheguei ao bar onde o Velho me esperava. Ele, quando me viu, colocou vinho tinto na taça que havia solicitado para mim e foi logo falando sem me dar chance de explicitar minha indignação. Demonstrava estar de bem com a vida.

― Bolinho de bacalhau, prove; o vinho é português, do mesmo rótulo daquele que bebemos na última vez em que estivemos aqui. Qual a sua opinião sobre a minha garota, é linda, não é? Estou a cada dia mais apaixonado.

Fiquei um pouco desanuviado em função da alegria do meu amigo e perguntei:

― Então, deu tudo certo? Já a considera sua namorada? Prestei atenção quando ela chegou e vi quando vocês se dirigiram à praia, a garota é realmente linda. Parabéns.

― Nélio, você e sua mania de rótulos. O que importa se é minha namorada, noiva, esposa ou amante? O que importa é que estamos apaixonadíssimos.

― Bem, Velho, eu teria enorme prazer em ficar horas conversando sobre o seu novo amor, mas confesso que não estou com espírito para compartilhar toda essa alegria estampada em seu rosto. Minha preocupação é grande, estamos às vésperas de uma decisão importantíssima: o julgamento político de um Presidente da República; há quem diga que estamos à beira de uma guerra civil. Afinal, qual a sua opinião: você mantém a posição que externou na nossa última conversa, isto é, de que a Presidente vai cair?

Ele não respondeu de pronto, saboreou um bolinho de bacalhau, deu uma bebericada no vinho e, com um sorriso irônico disse:

― Que presidente, Nélio? Nós não temos presidente há algum tempo. O governo está paralisado, está nos últimos suspiros, não tem qualquer possibilidade de reação. Qualquer pessoa que tenha bom senso constata que os treze anos de governo petista conduziram o Brasil à maior crise da história, tanto na política, quanto na economia e na ética. A ampla maioria do povo quer ver o PT banido e isso envolve todas as camadas da sociedade, até mesmo o segmento que foi beneficiado com os programas sociais. Até 2014 o governo atuou com apoio popular e com maioria no Congresso, navegou em “Mar de Almirante”, usufruiu do período de crescimento da economia mundial e alardeou o próprio crescimento com muita pompa, apesar de ter sido um dos países que menos cresceram no mundo naquela época. No entanto, apesar do crescimento, não se preparou, por incompetência, para um futuro que se mostrava não tão favorável em termos globais e hoje amarga um desempenho na economia que só não está pior do que a Rússia e a Ucrânia dentre os que compõem o ranking de trinta e cinco países. Em 2015, o PIB do Brasil recuou 24,6% em comparação com o de 2014, de acordo com dados do IBGE e do FMI. Só três países, dos trinta e cinco listados, tiveram crescimento negativo e um deles é o nosso.

Estendi a mão direita na direção do Velho e o interrompi:

― Você citou o segmento que foi beneficiado com programas sociais, então algo de positivo aconteceu.

― Naquela ocasião houve movimentos nesse sentido em vários países, não foi somente o Brasil que investiu em programas sociais. Não sou contra tais programas, entretanto, não sei se já comentei com você, isso só faz sentido se estiver no bojo de um projeto macro e, como o PT nunca teve projetos que não fossem populistas, acabou sendo um movimento para arrebanhar votos para o partido. Quando você me interrompeu, eu estava dizendo que até 2014 o governo teve os ingredientes para uma trajetória tranquila e ia dizer que, após a reeleição da presidente, tudo mudou e mudou porque ficou logo explícito que a campanha tinha sido calcada em mentiras que não poderiam se sustentar e, para complicar a vida do partido, começaram a vir a público os fatos apurados na Operação Lava Jato. A partir daí, a aceitação da Presidente vem caindo e já se admite que tem apenas dez por cento de aprovação por parte do povo.

― Bem, Velho, no entanto não é o povo que decide se ela continua e sim o Congresso e não é segredo que a troca de cargos nos diversos escalões do governo por votos no plenário da Câmara está às escâncaras.

― A realidade, por pior que seja, pode trazer benefícios. Ao assumir a Presidência da República o PT vislumbrou a oportunidade de se perpetuar no poder e enriquecer os membros da sua cúpula, nem que para isso tivesse que levar o país à ruína.  A ganância aliada à impunidade histórica encorajou a formação de uma verdadeira quadrilha que produziu, de início, o “mensalão”, com o objetivo de ter nas mãos a maioria no Congresso para não correr o risco de ter os seus interesses contrariados, e, posteriormente, os crimes que a Operação Lava Jato fez emergir da lama. A hora é esta para moralizar a política, tenho certeza de que não teremos nova oportunidade. Quem está dando essa oportunidade é o PT.

― Você saiu pela tangente. Eu disse que quem vai decidir o futuro da Presidente é o Congresso e não o povo. A maioria do povo não aceita a Presidente, mas não é ele quem vai decidir.

― Ora, Nélio, você acha que os políticos são otários? Você acredita que eles jogam para perder? Ao contrário, são muito espertos. Todos sabem que os partidos da “igrejinha” (PT, PC do B e PSOL) vão votar, sem exceção, contra o impeachment, esses não abandonam o barco por mais que o barco faça água; envolve ideologia, esperteza, etc. Por outro lado, sabemos que a totalidade desses votos não é suficiente para a vitória. A oposição, é claro, vota pelo impeachment, mas, também, não tem o número de votos para ganhar. O PMDB, com a maior bancada, pulou do barco, mas está dividido, entretanto acredito que a maioria vá votar com a oposição. O governo investe na pequena parcela do PMDB indecisa e nos deputados dos partidos menores, os quais estão sendo tentados pelos cargos oferecidos. Ocorre que o voto será aberto e esses políticos oportunistas sabem que, se votarem com o governo, ou faltarem à votação, ficarão malditos e nunca mais serão eleitos. Listas com os seus nomes estarão à disposição dos eleitores em todas as eleições futuras; não haverá perdão. No nicho da “igrejinha” eles não entram, pois os eleitores já estão “carimbados”. Os eleitores que querem o afastamento da Presidente, que formam a maioria, nem querem ouvir falar em nomes que estão na lista que intitulam de maldita, isto é, dos deputados contra o impeachment, em suma, fim de linha para eles. É claro que, perspicazes como são, não entrarão nessa furada, até porque, entendem que terão vida curta no atual governo, pois se a Presidente não cair pelo Congresso, cairá pelo Tribunal Superior Eleitoral.

De repente, o Velho levantou e foi ao encontro da sua amada. Ela acenou para mim, ele pegou a cadeira de praia e eu paguei a conta. FUI!