O PT TROPEÇOU NAS PRÓPRIAS PERNAS

Logo no dia seguinte ao da autorização dada pela Câmara dos Deputados para a abertura do processo de impeachment contra a Presidente da República, dirigi-me ao bar, aquele no qual costumo encontrar com o Velho. Desta vez, ele estava enrolado na Bandeira Brasileira e, antes que começasse a abrir o coração sobre o seu recente caso amoroso, fui imediatamente ao assunto que me fez procurá-lo:

― Velho, que reviravolta. Se o “Buraco de Minhoca”, teorizado primeiramente por Einstein, estivesse confirmado pelos cientistas que defendem essa teoria e voltássemos por ele no tempo, exatamente ao ano de 2014, e afirmássemos naquela época que a Presidente teria uma sobrevida de um pouco mais de um ano no cargo, seríamos taxados de loucos. Concorda?

― Nélio, sirva-se deste delicioso o palmito assado, é especialidade da casa. O vinho é do Alentejo e foi indicado pelo maitre; muito bom. Ah… que fim de semana, o amor é lindo… Assisti todo o desenrolar do processo de admissibilidade do impeachment abraçado à minha garota.

Interrompi o amigo e insisti:

― O Planalto e os políticos ligados ao governo continuam afirmando que o impeachment é golpe, que a Presidente foi eleita pelo voto popular e que, se ela for afastada, a assunção do vice-presidente vai ser complicada, já que Michel Temer está envolvido com denúncias de corrupção. Acusam-no, também, de ter conspirado contra Dilma Rousseff e que essa conspiração foi o fator decisivo para o resultado da votação na Câmara. A Presidente se diz injustiçada.

― É choro, faz parte desse embate político. O que a Presidente, os aliados políticos que ainda restam e os eleitores da “Igrejinha” (PT, PC do B e PSOL) poderiam dizer? Faltam argumentos. A lenga-lenga de golpe em virtude de não haver, segundo eles, respaldo jurídico, deixou de fazer sentido a partir do momento em que o STM rejeitou os cinco mandados de segurança impetrados no sentido de sustar o processo, ali foi encerrada a discussão jurídica. Está cansativa a fala repetitiva do Advogado Geral da União nesse sentido. Não vamos falar mais disso, o assunto está esgotado, o Supremo deu a palavra final. Quanto ao Temer, também foi eleito pelos mesmos eleitores que elegeram a Dilma, se ele tem todos os defeitos que os defensores do governo apregoam, por que o convidaram para compor a chapa do partido? Para ajudar a eleger, serve, quando se posiciona contrário, não presta. Talvez a Dilma não tivesse obtido os votos necessários para a reeleição se não tivesse feito a composição com o Temer. É necessário ter coerência. Inúmeras alianças espúrias foram realizadas pelo PT para alcançar seus objetivos, alianças com Sarney, Maluf, Collor, Renan Calheiros, Jader Barbalho e outros que, anteriormente, eram atacados pelo partido e, até, chamados de ladrões. Antes, só tinham defeitos, quando necessários, só tinham virtudes e agora, qual a opinião do PT sobre eles?

O Velho estava empolgado, fez uma pausa, um gesto para que me servisse do palmito, bebeu vinho com todo o ritual de praxe e continuou:

― O PT teve todas as condições para fazer excelentes governos; anteriormente, nenhum outro partido teve condições tão favoráveis. Governou com maioria no Congresso para aprovar os seus projetos, teve apoio irrestrito do povo, vivenciou o período de crescimento global da economia e teve até dinheiro desviado da Petrobras e de outras estatais para comprar parlamentares (o que foi tornado público no processo do “mensalão”), entretanto, tropeçou nas próprias pernas. Fracassou na política, o que é fácil comprovar pelo resultado da recente votação na Câmara. Um partido que, em doze anos, teve maioria naquela casa e que perde a votação mais importante obtendo apenas 137 votos em um total de 511 deputados, convenhamos, a derrota aponta para a renúncia da Presidente; ficou explícito que não há governabilidade com esse quadro. Os petistas não podem alegar que houve jogo sujo da oposição, pois é do conhecimento de todos que o governo negociou até os últimos instantes a troca de cargos por votos no plenário.

― Velho, o que provocou a perda de apoio político?

― Foram alguns motivos, desde a falta de pendor da Presidente para negociações, provavelmente pela sua arrogância, até o estrago causado no partido pela operação Lava Jato. Infelizmente, nós, brasileiros, sempre assumimos que o Brasil é o país da impunidade e, com essa certeza, o PT deixou pegadas que levaram ao “Mensalão” e posteriormente ao “Petrolão”. As investigações da Polícia Federal e as atuações da Procuradoria Geral da República e do juiz Sérgio Moro provocaram um estrago de tal monta que o PT não teve como se defender efetivamente das acusações que lhe estavam sendo imputadas e, por isso, criou frases de efeito que não tinham nada a ver as acusações e partiu, também, para banalizar os crimes cometidos com o argumento de que tais crimes já haviam sido cometidos anteriormente, como se isso o eximisse das responsabilidades.

― De certa forma essa estratégia funcionou, tendo em vista que alguns ainda defendem o partido.

― Não funcionou. Quando diziam que o povo brasileiro estava mais atento, mais politizado, eu duvidava, hoje mudei de opinião, o povo se mobilizou e exigiu a queda da Presidente e, ao que tudo indica, vai conseguir. Depois que as investigações da Polícia Federal foram noticiadas, os personagens mostraram suas verdadeiras caras e cada um, desnudado, mostrou o verdadeiro caráter. Triste fim para o PT, triste fim para o Lula. O Ex-Presidente poderia ter um final digno, mas vai deixar a política de forma melancólica. Homem enaltecido em alguns países, chamado de “O cara” pelo Presidente dos Estados Unidos, encerrou a carreira política entrincheirado em um quarto de hotel em Brasília, como um foragido, negociando votos para barrar o processo de impeachment. Exemplo impactante: a convocação de Maluf e Tiririca para implorar mais dois votos a favor da Presidente; bem, poderíamos até com muito boa vontade minimizar o fato com o argumento de que política é negociação, entretanto o resultado mostrou que Lula não possui mais qualquer influência política, não tem cacife ― os dois disseram em alto e bom som “SIM” ao afastamento da Presidente na sessão da Câmara transmitida pela televisão para todo o país. Repito, triste fim. Já tinha sido protagonista, juntamente com a Presidente da República, de um ato que mais pareceu uma ópera bufa, a sua nomeação, em boa hora sustada, para um ministério com a nítida intenção de blindá-lo para não cair nas mãos do juiz Sérgio Moro. Em determinado dia, em diálogo gravado, Dilma Rousseff orientava Lula a usar, caso a Polícia Federal fosse prendê-lo, o documento de nomeação na função de ministro, mesmo sem ter sido empossado; no dia seguinte, a Presidente brandia uma folha de papel, que dizia ser aquela que havia enviado ao Ex-Presidente, afirmando que tal papel não tinha valor, por estar sem assinatura. Que papelão… Por não ter como se defender das acusações de corrupção o partido foi perdendo apoio popular, restando apenas o grupo, a que me referi anteriormente, que, apaixonado, nunca deixará as hostes.

Repentinamente, o Velho levantou, abriu aquele sorriso, caminhou em direção à garota, pegou a cadeira de praia e partiram. A garota, sorridente, com uma tira, nas cores verde e amarela, enrolada no pescoço, acenou para mim. Tudo como das outras vezes, no entanto, eu não sorri, apenas retribuí o aceno; ainda estava sob o impacto da conversa com o amigo. Na minha mente aparecia o Brasil dividido, um, o meu Brasil, verde e amarelo, o outro representado por bandeiras na cor vermelha, algumas com uma estrela, outras com a foice e o martelo, símbolos que não representam o meu Brasil; são emprestados por um outro país. Paguei a conta. FUI.