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SUPREMO. SER OU NÃO SER

Atendendo ao chamado do Velho, cheguei ao bar onde costumo encontrá-lo. Ele não havia chegado e o Salvador, que sempre nos atende, dirigiu-se a mim:

— Há quanto tempo? E o seu amigo? Vem? Providencio o vinho do Alentejo e os pastéis de costume?

— Espero que o meu amigo venha. O vinho e os pastéis não podem faltar.

Dei uma olhada ao redor e reconheci na varanda do bar o casal de idosos, ela empertigada e ele submisso; como também o solitário rapaz com nariz de papagaio, com seu olhar perdido e parecendo alheio ao que acontecia ao redor. Ninguém mais me era familiar. Depois de um copo de vinho e dois pastéis, o Velho apareceu com sua barba grisalha e seu cabelo, branco, comprido e desgrenhado. Sorriu levemente e acenou para todos que estavam na varanda do bar. Sem me cumprimentar, como se me visse diariamente, disse de pronto:

— Enche meu copo, Nélio. Não vou demorar, nosso papo vai ser rápido, minha namorada já deve estar chegando e, isso acontecendo, irei com ela para a praia.

— O que significa que, se ela aparecer agora, você vai embora e significa, também, que a minha vinda da Tijuca a Ipanema foi em vão.

— Relaxa. Teremos o tempo suficiente para eu dizer o que quero e dar a pauta para a matéria de um novo post. Aliás, você está totalmente dependente de mim, desde o nosso último encontro não publicou nada. Não percamos tempo, vamos direto ao assunto. O que acha do julgamento do Habeas Corpus do Lula amanhã no Supremo?

— Na minha opinião, o Habeas Corpus não deveria ser concedido e os meus argumentos não têm nada de especial, são os mesmos de milhões de brasileiros, isto é,  o Supremo impedindo a prisão do ex-presidente, irá, por via de consequência, propiciar a soltura de todos os outros condenados até que os recursos sejam julgados na última instância. Em suma, o avanço conseguido em 2016 com a aprovação da prisão depois de esgotados os recursos na Segunda Instância seria, sem qualquer razão plausível, desconsiderado. Seria, como todos dizem, um retrocesso. Temos um exemplo contundente: a prisão de Paulo Maluf. Tantos anos se passaram até que todos os recursos fossem utilizados e qual foi o resultado? Quando teve a condenação final estava com idade avançada e, por isso, já está cumprindo prisão domiciliar. E essa é a tônica, quem tem dinheiro protela a decisão para bem longe e, assim sendo, duas coisas podem acontecer: a prescrição da pena ou o cumprimento da pena em prisão domiciliar em virtude de não haver mais condições físicas e de saúde para o criminoso cumpri-la em presídio. Estou pessimista, pelo que tenho acompanhado, o Habeas Corpus do Lula vai ser aceito e a nossa esperança de que a prisão pudesse atingir tanto o pobre quanto o rico vai ficar como um sonho que não se transformará em realidade. Será, ainda, o fim da “Operação Lava Jato”. Todo o importante trabalho da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República será jogado no lixo. Não vai ser desta vez que acabaremos com a corrupção.

O Velho olhou-me com aquele sorriso debochado que eu tão bem conheço:

— Engana-se, o Habeas Corpus não vai ser aceito por decisão unânime. Esses seus argumentos são fortes, mas não vão ser decisivos. Se o Supremo tomar a decisão oposta, vai entrar para a história como palco da maior aberração já presenciada. O que vale é a decisão tomada em 2016, isto é, a prisão deve acontecer após exauridos todos os recursos na Segunda Instância, nada mais há a discutir. Os que estão contra, que procurem alterar a decisão já tomada, mas nunca descumpri-la, isso será um descalabro e a desmoralização.

— Você não está considerando que há ministros que são contrários a decisão tomada em 2016 e vão alegar que o resultado foi apertado, isto é, seis votos contra cinco. Esses que são contrários discursarão, cada um, por cerca de três horas com citações até da justiça romana, tentando convencer, com argumentos jurídicos, que o placar acirrado mostra que o Plenário não estava convicto do caminho a tomar.

— Que argumentos jurídicos, Nélio? Isso não está em jogo. O que existe é que houve uma decisão e ela tem que prevalecer. O Supremo é o órgão máximo da justiça e suas decisões devem ser acatadas sem discussão. Como ele próprio vai descumprir a sua própria decisão? Não importa o placar, poderia ser seis a cinco ou onze a zero. Se existem ministros do Supremo que discordam da decisão de 2016 que proponham a rediscussão, mas não votem contra o que está estabelecido. A parcela do povo que sempre lutou pela condenação dos criminosos de todas as classes sociais não vai ser convencida por argumentos jurídicos, o que ela quer é que seja cumprido o que o próprio Supremo decidiu e que está vigorando.

— Depreendo que você acredita que, se o Supremo resolver aceitar o Habeas Corpus, ficará desmoralizado?

— Eu não acredito que algum ministro vá votar a favor do Habeas Corpus. Se algum optar por esse caminho, vai carregar no seu currículo a mácula de ter desrespeitado uma decisão do colegiado a que pertence. Vá para casa tranquilo, Nélio, acredita em mim, o Habeas Corpus não passará pelo Supremo.

O semblante sério do Velho modificou-se, abriu um sorriso e disse:

— Minha namorada chegou, até a próxima.

Quando se dirigia em direção à namorada, o rapaz de nariz de papagaio, que parecia alheio a tudo ao redor, levantou-se e aplaudiu. Todos da varanda repetiram o gesto dele, levantaram e aplaudiram o Velho. Até a idosa empertigada não brigou com o velhinho submisso e ainda me disse:

— Você sabe que não suporto o seu amigo, mas hoje, excepcionalmente, gostei do que ele disse.

O Velho fica empolgado ao argumentar e, assim, é sempre ouvido pelas mesas vizinhas. Os frequentadores do bar voltaram aos seus beliscos e eu reconheci que o Velho havia me convencido quanto ao resultado do julgamento do Habeas Corpus. Iria para cassa feliz e com um post menor do que o habitual, o que agradaria o meu grande amigo José Maria Sobrinho. Ele havia criticado os meus textos longos. Disse ele: as pessoas só leem textos curtos. Fui.

O PT TROPEÇOU NAS PRÓPRIAS PERNAS

Logo no dia seguinte ao da autorização dada pela Câmara dos Deputados para a abertura do processo de impeachment contra a Presidente da República, dirigi-me ao bar, aquele no qual costumo encontrar com o Velho. Desta vez, ele estava enrolado na Bandeira Brasileira e, antes que começasse a abrir o coração sobre o seu recente caso amoroso, fui imediatamente ao assunto que me fez procurá-lo:

― Velho, que reviravolta. Se o “Buraco de Minhoca”, teorizado primeiramente por Einstein, estivesse confirmado pelos cientistas que defendem essa teoria e voltássemos por ele no tempo, exatamente ao ano de 2014, e afirmássemos naquela época que a Presidente teria uma sobrevida de um pouco mais de um ano no cargo, seríamos taxados de loucos. Concorda?

― Nélio, sirva-se deste delicioso o palmito assado, é especialidade da casa. O vinho é do Alentejo e foi indicado pelo maitre; muito bom. Ah… que fim de semana, o amor é lindo… Assisti todo o desenrolar do processo de admissibilidade do impeachment abraçado à minha garota.

Interrompi o amigo e insisti:

― O Planalto e os políticos ligados ao governo continuam afirmando que o impeachment é golpe, que a Presidente foi eleita pelo voto popular e que, se ela for afastada, a assunção do vice-presidente vai ser complicada, já que Michel Temer está envolvido com denúncias de corrupção. Acusam-no, também, de ter conspirado contra Dilma Rousseff e que essa conspiração foi o fator decisivo para o resultado da votação na Câmara. A Presidente se diz injustiçada.

― É choro, faz parte desse embate político. O que a Presidente, os aliados políticos que ainda restam e os eleitores da “Igrejinha” (PT, PC do B e PSOL) poderiam dizer? Faltam argumentos. A lenga-lenga de golpe em virtude de não haver, segundo eles, respaldo jurídico, deixou de fazer sentido a partir do momento em que o STM rejeitou os cinco mandados de segurança impetrados no sentido de sustar o processo, ali foi encerrada a discussão jurídica. Está cansativa a fala repetitiva do Advogado Geral da União nesse sentido. Não vamos falar mais disso, o assunto está esgotado, o Supremo deu a palavra final. Quanto ao Temer, também foi eleito pelos mesmos eleitores que elegeram a Dilma, se ele tem todos os defeitos que os defensores do governo apregoam, por que o convidaram para compor a chapa do partido? Para ajudar a eleger, serve, quando se posiciona contrário, não presta. Talvez a Dilma não tivesse obtido os votos necessários para a reeleição se não tivesse feito a composição com o Temer. É necessário ter coerência. Inúmeras alianças espúrias foram realizadas pelo PT para alcançar seus objetivos, alianças com Sarney, Maluf, Collor, Renan Calheiros, Jader Barbalho e outros que, anteriormente, eram atacados pelo partido e, até, chamados de ladrões. Antes, só tinham defeitos, quando necessários, só tinham virtudes e agora, qual a opinião do PT sobre eles?

O Velho estava empolgado, fez uma pausa, um gesto para que me servisse do palmito, bebeu vinho com todo o ritual de praxe e continuou:

― O PT teve todas as condições para fazer excelentes governos; anteriormente, nenhum outro partido teve condições tão favoráveis. Governou com maioria no Congresso para aprovar os seus projetos, teve apoio irrestrito do povo, vivenciou o período de crescimento global da economia e teve até dinheiro desviado da Petrobras e de outras estatais para comprar parlamentares (o que foi tornado público no processo do “mensalão”), entretanto, tropeçou nas próprias pernas. Fracassou na política, o que é fácil comprovar pelo resultado da recente votação na Câmara. Um partido que, em doze anos, teve maioria naquela casa e que perde a votação mais importante obtendo apenas 137 votos em um total de 511 deputados, convenhamos, a derrota aponta para a renúncia da Presidente; ficou explícito que não há governabilidade com esse quadro. Os petistas não podem alegar que houve jogo sujo da oposição, pois é do conhecimento de todos que o governo negociou até os últimos instantes a troca de cargos por votos no plenário.

― Velho, o que provocou a perda de apoio político?

― Foram alguns motivos, desde a falta de pendor da Presidente para negociações, provavelmente pela sua arrogância, até o estrago causado no partido pela operação Lava Jato. Infelizmente, nós, brasileiros, sempre assumimos que o Brasil é o país da impunidade e, com essa certeza, o PT deixou pegadas que levaram ao “Mensalão” e posteriormente ao “Petrolão”. As investigações da Polícia Federal e as atuações da Procuradoria Geral da República e do juiz Sérgio Moro provocaram um estrago de tal monta que o PT não teve como se defender efetivamente das acusações que lhe estavam sendo imputadas e, por isso, criou frases de efeito que não tinham nada a ver as acusações e partiu, também, para banalizar os crimes cometidos com o argumento de que tais crimes já haviam sido cometidos anteriormente, como se isso o eximisse das responsabilidades.

― De certa forma essa estratégia funcionou, tendo em vista que alguns ainda defendem o partido.

― Não funcionou. Quando diziam que o povo brasileiro estava mais atento, mais politizado, eu duvidava, hoje mudei de opinião, o povo se mobilizou e exigiu a queda da Presidente e, ao que tudo indica, vai conseguir. Depois que as investigações da Polícia Federal foram noticiadas, os personagens mostraram suas verdadeiras caras e cada um, desnudado, mostrou o verdadeiro caráter. Triste fim para o PT, triste fim para o Lula. O Ex-Presidente poderia ter um final digno, mas vai deixar a política de forma melancólica. Homem enaltecido em alguns países, chamado de “O cara” pelo Presidente dos Estados Unidos, encerrou a carreira política entrincheirado em um quarto de hotel em Brasília, como um foragido, negociando votos para barrar o processo de impeachment. Exemplo impactante: a convocação de Maluf e Tiririca para implorar mais dois votos a favor da Presidente; bem, poderíamos até com muito boa vontade minimizar o fato com o argumento de que política é negociação, entretanto o resultado mostrou que Lula não possui mais qualquer influência política, não tem cacife ― os dois disseram em alto e bom som “SIM” ao afastamento da Presidente na sessão da Câmara transmitida pela televisão para todo o país. Repito, triste fim. Já tinha sido protagonista, juntamente com a Presidente da República, de um ato que mais pareceu uma ópera bufa, a sua nomeação, em boa hora sustada, para um ministério com a nítida intenção de blindá-lo para não cair nas mãos do juiz Sérgio Moro. Em determinado dia, em diálogo gravado, Dilma Rousseff orientava Lula a usar, caso a Polícia Federal fosse prendê-lo, o documento de nomeação na função de ministro, mesmo sem ter sido empossado; no dia seguinte, a Presidente brandia uma folha de papel, que dizia ser aquela que havia enviado ao Ex-Presidente, afirmando que tal papel não tinha valor, por estar sem assinatura. Que papelão… Por não ter como se defender das acusações de corrupção o partido foi perdendo apoio popular, restando apenas o grupo, a que me referi anteriormente, que, apaixonado, nunca deixará as hostes.

Repentinamente, o Velho levantou, abriu aquele sorriso, caminhou em direção à garota, pegou a cadeira de praia e partiram. A garota, sorridente, com uma tira, nas cores verde e amarela, enrolada no pescoço, acenou para mim. Tudo como das outras vezes, no entanto, eu não sorri, apenas retribuí o aceno; ainda estava sob o impacto da conversa com o amigo. Na minha mente aparecia o Brasil dividido, um, o meu Brasil, verde e amarelo, o outro representado por bandeiras na cor vermelha, algumas com uma estrela, outras com a foice e o martelo, símbolos que não representam o meu Brasil; são emprestados por um outro país. Paguei a conta. FUI.

Impeachment or not Impeachment

O trânsito estava horrível, não podemos mais estabelecer horários precisos para os encontros. Manifestantes por toda a parte interrompem ruas com protestos por não receberem do Estado os salários que lhes são devidos. Protestos justos, por sinal. Já chegamos ao fundo do poço. É surreal, as pessoas trabalham, cumprem com suas obrigações, mas não recebem salários. Foi com esse espírito de revolta que cheguei ao bar onde o Velho me esperava. Ele, quando me viu, colocou vinho tinto na taça que havia solicitado para mim e foi logo falando sem me dar chance de explicitar minha indignação. Demonstrava estar de bem com a vida.

― Bolinho de bacalhau, prove; o vinho é português, do mesmo rótulo daquele que bebemos na última vez em que estivemos aqui. Qual a sua opinião sobre a minha garota, é linda, não é? Estou a cada dia mais apaixonado.

Fiquei um pouco desanuviado em função da alegria do meu amigo e perguntei:

― Então, deu tudo certo? Já a considera sua namorada? Prestei atenção quando ela chegou e vi quando vocês se dirigiram à praia, a garota é realmente linda. Parabéns.

― Nélio, você e sua mania de rótulos. O que importa se é minha namorada, noiva, esposa ou amante? O que importa é que estamos apaixonadíssimos.

― Bem, Velho, eu teria enorme prazer em ficar horas conversando sobre o seu novo amor, mas confesso que não estou com espírito para compartilhar toda essa alegria estampada em seu rosto. Minha preocupação é grande, estamos às vésperas de uma decisão importantíssima: o julgamento político de um Presidente da República; há quem diga que estamos à beira de uma guerra civil. Afinal, qual a sua opinião: você mantém a posição que externou na nossa última conversa, isto é, de que a Presidente vai cair?

Ele não respondeu de pronto, saboreou um bolinho de bacalhau, deu uma bebericada no vinho e, com um sorriso irônico disse:

― Que presidente, Nélio? Nós não temos presidente há algum tempo. O governo está paralisado, está nos últimos suspiros, não tem qualquer possibilidade de reação. Qualquer pessoa que tenha bom senso constata que os treze anos de governo petista conduziram o Brasil à maior crise da história, tanto na política, quanto na economia e na ética. A ampla maioria do povo quer ver o PT banido e isso envolve todas as camadas da sociedade, até mesmo o segmento que foi beneficiado com os programas sociais. Até 2014 o governo atuou com apoio popular e com maioria no Congresso, navegou em “Mar de Almirante”, usufruiu do período de crescimento da economia mundial e alardeou o próprio crescimento com muita pompa, apesar de ter sido um dos países que menos cresceram no mundo naquela época. No entanto, apesar do crescimento, não se preparou, por incompetência, para um futuro que se mostrava não tão favorável em termos globais e hoje amarga um desempenho na economia que só não está pior do que a Rússia e a Ucrânia dentre os que compõem o ranking de trinta e cinco países. Em 2015, o PIB do Brasil recuou 24,6% em comparação com o de 2014, de acordo com dados do IBGE e do FMI. Só três países, dos trinta e cinco listados, tiveram crescimento negativo e um deles é o nosso.

Estendi a mão direita na direção do Velho e o interrompi:

― Você citou o segmento que foi beneficiado com programas sociais, então algo de positivo aconteceu.

― Naquela ocasião houve movimentos nesse sentido em vários países, não foi somente o Brasil que investiu em programas sociais. Não sou contra tais programas, entretanto, não sei se já comentei com você, isso só faz sentido se estiver no bojo de um projeto macro e, como o PT nunca teve projetos que não fossem populistas, acabou sendo um movimento para arrebanhar votos para o partido. Quando você me interrompeu, eu estava dizendo que até 2014 o governo teve os ingredientes para uma trajetória tranquila e ia dizer que, após a reeleição da presidente, tudo mudou e mudou porque ficou logo explícito que a campanha tinha sido calcada em mentiras que não poderiam se sustentar e, para complicar a vida do partido, começaram a vir a público os fatos apurados na Operação Lava Jato. A partir daí, a aceitação da Presidente vem caindo e já se admite que tem apenas dez por cento de aprovação por parte do povo.

― Bem, Velho, no entanto não é o povo que decide se ela continua e sim o Congresso e não é segredo que a troca de cargos nos diversos escalões do governo por votos no plenário da Câmara está às escâncaras.

― A realidade, por pior que seja, pode trazer benefícios. Ao assumir a Presidência da República o PT vislumbrou a oportunidade de se perpetuar no poder e enriquecer os membros da sua cúpula, nem que para isso tivesse que levar o país à ruína.  A ganância aliada à impunidade histórica encorajou a formação de uma verdadeira quadrilha que produziu, de início, o “mensalão”, com o objetivo de ter nas mãos a maioria no Congresso para não correr o risco de ter os seus interesses contrariados, e, posteriormente, os crimes que a Operação Lava Jato fez emergir da lama. A hora é esta para moralizar a política, tenho certeza de que não teremos nova oportunidade. Quem está dando essa oportunidade é o PT.

― Você saiu pela tangente. Eu disse que quem vai decidir o futuro da Presidente é o Congresso e não o povo. A maioria do povo não aceita a Presidente, mas não é ele quem vai decidir.

― Ora, Nélio, você acha que os políticos são otários? Você acredita que eles jogam para perder? Ao contrário, são muito espertos. Todos sabem que os partidos da “igrejinha” (PT, PC do B e PSOL) vão votar, sem exceção, contra o impeachment, esses não abandonam o barco por mais que o barco faça água; envolve ideologia, esperteza, etc. Por outro lado, sabemos que a totalidade desses votos não é suficiente para a vitória. A oposição, é claro, vota pelo impeachment, mas, também, não tem o número de votos para ganhar. O PMDB, com a maior bancada, pulou do barco, mas está dividido, entretanto acredito que a maioria vá votar com a oposição. O governo investe na pequena parcela do PMDB indecisa e nos deputados dos partidos menores, os quais estão sendo tentados pelos cargos oferecidos. Ocorre que o voto será aberto e esses políticos oportunistas sabem que, se votarem com o governo, ou faltarem à votação, ficarão malditos e nunca mais serão eleitos. Listas com os seus nomes estarão à disposição dos eleitores em todas as eleições futuras; não haverá perdão. No nicho da “igrejinha” eles não entram, pois os eleitores já estão “carimbados”. Os eleitores que querem o afastamento da Presidente, que formam a maioria, nem querem ouvir falar em nomes que estão na lista que intitulam de maldita, isto é, dos deputados contra o impeachment, em suma, fim de linha para eles. É claro que, perspicazes como são, não entrarão nessa furada, até porque, entendem que terão vida curta no atual governo, pois se a Presidente não cair pelo Congresso, cairá pelo Tribunal Superior Eleitoral.

De repente, o Velho levantou e foi ao encontro da sua amada. Ela acenou para mim, ele pegou a cadeira de praia e eu paguei a conta. FUI!

A INCOERÊNCIA DO SER HUMANO

Recebi mensagem do Velho para encontrá-lo em um bar de Ipanema, o mesmo da última vez. Quando cheguei, ele estava, como sempre, empunhando uma tulipa de chope e convidou-me para sentar ao seu lado. Dirigiu-se ao garçom: ― Salvador, traz, por favor, uma tulipa para o meu amigo. ― Voltou-se para mim:
― Experimenta o pastel, acabou de chegar. É de camarão e está ótimo. ― E mudando de assunto: ― Acredita que eu o vi na passeata de domingo em Copacabana?
― Está brincando, não que seja impossível, mas seria incrível coincidência. Havia uma multidão.
― O seu amigo não portava um chapéu? Você não vestia camisa branca com listas horizontais e bermuda azul? Eu estava em um dos carros de som e vi vocês cantando o Hino Nacional; foi emocionante, não foi?
― É verdade, deu para arrepiar. Curioso, a probabilidade de me localizar era pequena, seria mais fácil vê-lo no carro de som, entretanto, pela descrição, você me viu mesmo.
Como se não tivesse prestado atenção ao que falei, ele mudou de assunto:
― Nélio, estou apaixonado, irremediavelmente apaixonado, penso nela o dia inteiro. Você vai conhecer a garota hoje, ela passa nesta calçada todos os dias no mesmo horário em direção à praia e eu fico esperando até que faça o caminho de volta para casa. Aceno e ela responde com um sorriso. Hoje, quando ela passar por aqui, vou abandona-lo para acompanha-la até a praia. Você vai concordar comigo, é a mulher mais linda do mundo. Não me sai da cabeça.
― Velho, não estou interessado nessa conversa. Quero explorar sua sapiência para tentar entender o que vem acontecendo. Desde criança, e lá se vão algumas décadas, ouço conversas acaloradas sobre política e, mesmo com diferenças partidárias, o brasileiro sempre foi uníssono no que concerne à corrupção no meio político, nesse particular, posso afiançar que não concordo com a assertiva de que todo político é ladrão, não me agradam tais generalizações, mas essa posição não é importante para o meu questionamento. Nesse clamor geral era comum ouvirmos frases do tipo: A corrupção na política não acaba porque só o pobre é preso, NUNCA a justiça vai alcançar o rico, o político, enfim, o chamado bandido do “colarinho branco”. Eu imaginava que se algum dia aparecesse um “maluco”, ou alguns “malucos” (bem… continuemos no plural), empenhados para que não fosse perpetuado tamanho absurdo, que acreditassem que o Brasil poderia ser “reinventado” e iniciassem um grande movimento com a intenção de enredar os poderosos que sangram os cofres públicos, todo o povo brasileiro promoveria uma festa maior que o Carnaval, maior que a comemoração de um Campeonato Mundial de Futebol, em suma, seria A FESTA DE TODA A NAÇÃO. Para minha surpresa, apesar de a maioria estar apoiando a Lava Jato, há um grupo que, ignorando as evidências, bombardeia a operação com argumentos como: “as gravações são ilegais, não deveriam ser divulgadas, tudo isso é manobra da oposição e das elites”. Não estou defendendo que sejam cometidas ilegalidades para que as investigações cheguem a um bom termo, mas não devemos ignorar o foco, isto é, o ponto central, que é o desbaratamento de uma quadrilha que deixou o mundo perplexo diante da magnitude do roubo e do envolvimento da cúpula do governo. Não tenho conhecimento para fazer uma análise jurídica quanto à validade das escutas e da divulgação das mesmas, no entanto acredito que haja um senso comum de que os atos dos homens públicos devam ser compartilhados com o povo para que possamos avaliar o caráter de todos. As escutas telefônicas deixaram alguns políticos “nus”, mostraram-nos que eles, até então, eram apenas personagens de uma comédia de extremo mau gosto e que sem os holofotes eram as antíteses dos seus personagens. Então, Velho, esclareça-me: Por que existem pessoas que se voltam contra uma ação que vem ao encontro daquilo que sempre foi almejado pelo povo brasileiro? Qual o motivo? Por que mudaram de opinião?
O Velho não respondeu de pronto, esvaziou a tulipa com um só gole, pediu outra ao Salvador, comeu um pastel; parecia ganhar tempo pensando, finalmente falou pausadamente:
― Seu discurso foi bonito, mas tem alguns tropeços, primeiro porque mostra angústia, inconformismo com a irracionalidade de um ser que se diz racional. O homem é imperfeito, é cruel, é teimoso, é egoísta, é tendencioso e apaixonado, não adianta raciocinar com o homem ideal. Talvez, quando os vírus que nos assustam venham a exterminar com a humanidade, surja um novo ciclo de vida e que, depois de milhões de anos de evolução, o homem idealizado, perfeito, venha a habitar nosso planeta; enquanto não acontece, precisamos conviver com esse ser contraditório, incoerente. Outro erro está na sua pergunta: “Qual o motivo?” Não existe um motivo para as pessoas que estão contra as investigações, existem alguns motivos, cada grupo tem a sua motivação própria. Por exemplo, os que ocupam funções de confiança, como os ministros e outros cargos comissionados querem que nada aconteça com o governo, pois, assim, conservam os cargos. Outro grupo é o das entidades de classe, dos movimentos sociais e outros que recebem benesses do governo; o grupo não quer arriscar o que já conquistou. Estou resumindo porque já está quase no horário da garota ir para a praia. Não posso me estender. Os investigados na Operação Lava Jato, alguns pertencem aos grupos citados, outros ao Legislativo, etc, esses, então, não querem nem ouvir falar na Polícia Federal, no Ministério Público e muito menos no Juiz Sérgio Moro e devem estar utilizando todos os trunfos que têm nas mãos para impedir que a Operação prossiga. Se não fosse a divulgação das conversas teriam mais chance de conseguir suas metas. A divulgação das conversas protegeu sim a Operação. Na realidade, os grupos têm discursos parecidos. O que poderiam dizer contra as provas contundentes? Contra fatos não há argumentos, saem pela tangente, não se justificam, apenas contra atacam. Para nós, que a cada dia nos surpreendemos com novos fatos, está tudo claro. Não temos poder de condenação legal, mas temos as nossas opiniões e podemos, em face dessas opiniões, fazer as nossas condenações. E como elas acontecem? Nas eleições e nas pesquisas de opinião.
― Muito bem, Velho, vou usar as suas armas: Palmas, palmas, brilhante discurso, mas não é definitivo. Conheço pessoas que não pertencem aos grupos citados, que não perdem nada palpável com a não condenação dos membros da quadrilha e que defendem o governo. E aí?
― Tem razão, essa é a turma mais complicada porque, como você diz, não usufrui de ganhos materiais e, sendo assim, temos que entrar no campo subjetivo. Você deve lembrar, pois é das antigas, do termo “Inocentes Úteis”, termo fora de uso, mas podemos usá-lo. Todos nós sabemos que na época da Guerra Fria havia uma verdadeira lavagem cerebral por parte da esquerda (não gosto dos termos esquerda e direita, mas acabamos caindo na armadilha, vamos em frente). Havia um número significativo de professores, principalmente nas faculdades, que procuravam cooptar alunos para adotarem suas ideias, o que não era difícil, pois o discurso é fácil e motivador. Quem pode ser contrário à melhora de vida dos mais pobres? Quem pode ser contrário às oportunidades iguais para todos? Todos somos favoráveis a esses anseios, mas, sabidamente, políticos espertos, que se intitulam de esquerda usaram e usam esses discursos para enredar o povo. Aquela história “nós contra eles”, “os trabalhadores contra as elites” e, assim, o imaginário está repleto de verdades insofismáveis, tais como, “quem é de esquerda é bom”, “ser de esquerda é chique”, e mais “ser de esquerda é ser politizado e inteligente”, em suma, quem não é de esquerda é alienado. Está vendo, o cardápio atende a todas as classes sociais. Muitos assimilaram isso como verdade. Grandes atingidos, entre outros, foram os artistas e os professores. Por algum tempo não se via um artista se pronunciar como contrário à esquerda; os que eram contrários, escondiam. Os tempos mudaram, poderia me alongar nesse filão, mas fugiria ao nosso propósito, então vou citar apenas um fato emblemático que representa essa mudança de que falei: a queda do Muro de Berlim. Com esse evento muitos seguidores da esquerda abandonaram o barco, o que é normal, tendo em vista que podemos nos enganar e é saudável que reconheçamos os erros e tracemos novos rumos. Nós, atualmente, constantemente ouvimos nas redes sociais pronunciamentos importantes de artistas contrários ao atual governo de esquerda (?). Essa nossa conversa está ficando extensa e já vi que está gravando. Aconselho a não transcrever toda a conversa. Ninguém lê textos enormes.
― Não, não… Continue, estou gostando.
― O que me espanta é que muitos professores continuam a apoiar o governo. Já temos mais de treze anos sob as azas do PT e o ensino piorou nesse período. O Brasil necessita de um plano macro para o ensino, isso é fundamental, o investimento no ensino deve ser prioritário, mas como esperar algum planejamento de governos tão incompetentes. Os professores precisam ser valorizados, é necessário que tenham salários dignos, é necessário que tenham segurança para exercer a profissão. Estamos com uma geração perdida nas comunidades, as crianças sem escolas, arregimentadas pelos bandidos, sem que o poder público se emocione. ― Interrompeu a fala, tomou o chope, comeu um pastel e prosseguiu ― Estava com a boca seca, muito blá, blá, blá… A impressão que se tem é de que, durante a doutrinação, implantaram um chip no cérebro desses que não acordaram para a realidade e esse chip responde automaticamente aos questionamentos com frases prontas. Não importa que todas as evidências tenham sido colocadas na mesa para análise. Não sei se você notou, quando eles não têm mais argumentos para defesa dos ídolos corruptos atacam com uma frase gravada no chip: “É o sistema”. Sabe o que querem dizer com isso, que os seus ídolos fraquejaram porque o “sistema” em vigor corrompe a todos, o que tem que mudar é o “sistema”, isto é, trocar pelo regime comunista.
― Velho, eu sei que você está com pressa, então me responda: O Lula vai assumir o ministério? A Presidente vai sofrer impeachment? O Lula e familiares vão ser presos? Políticos envolvidos na Lava Jato vão ser alcançados?
― Você está achando que tenho bola de cristal, mas não vou fugir às perguntas. Vamos às minhas apostas: O STM vai liberar o Lula para assumir o ministério, se não for preso antes. Vai haver impeachment, a não ser que a presidente renuncie. Lula e familiares vão ser presos. Os políticos vão ser alcançados pela justiça. Bem, é o que eu acho. Para, para, para… aí vem a minha musa, que tal? ― Na mesa ao lado estava um casal com bastante idade. A senhora lembrava as matriarcas de novelas ou filmes de época, toda empertigada e fisionomia de quem nunca sorri e o marido tinha um aspecto submisso. O Velho naquele seu jeitão segurou o braço do senhor e perguntou apontando para a garota: ― O que acha, não é linda? ― O senhor olhou para a matriarca, que estava mais empertigada ainda, e baixou a cabeça.
O Velho disse para eu pagar a conta, como sempre, e foi em direção à garota. Ele fez uma espécie de continência, ela sorriu, entregou-lhe a cadeira de praia e foram os dois conversando alegremente. Pelo visto, o Velho não se enganara. Para diminuir o clima desagradável com os vizinhos de mesa, dirigi-me à matriarca e disse:
― Por favor, desculpe o meu amigo, ele é brincalhão, mas é boa pessoa.
― O seu amigo parece maluco, eu o vejo aqui vez por outra e o senhor deve ser maluco, também, já que é amigo dele…
É, sobrou para mim. Paguei a conta e FUI.

LULA, O PERSONAGEM

Eu estava sentado e ia ligar o computador quando o celular me avisou que havia algo de novo, era o WhatsApp. Mensagem sem foto, sem assinatura e originária de telefone desconhecido: “Nélio, estou à sua espera no Bar Tal, na Rua Vinicius de Morais, Ipanema”. Estamos acostumados com mensagens ameaçadoras, por isso não me preocupei, liguei o computador e acessei a planilha na qual iria trabalhar. Nova mensagem: “Nélio, responda-me, não vou ficar o resto do dia esperando”. Resolvi responder: “Não vou dar atenção a alguém que não mostra o rosto e não se identifica; desista”. Não se deu por vencido: “Tenho certeza de que você virá. Li o seu post ― Desconstruindo Lula ― e intuí que está querendo escrever mais sobre o tema. Quer munição? Vou provar que o Lula não tem carisma, ao contrário do que muita gente afirma”. Desta vez ele assinou: “Velho”. Fui!
O Velho estava em uma mesa na calçada e logo que me viu levantou a mão direita, que segurava uma tulipa de chope, e, com a outra mão, indicou a cadeira onde deveria me acomodar. Cumprimentei-o e disse:
― Doze anos se passaram e você não mudou nada, a mesma barba branca, o cabelo, também branco, do mesmo jeito, parece que não envelhece.
― Tem razão, eu não envelheço, mas, por outro lado, você está bem mais envelhecido.
Esse era realmente o Velho que havia conhecido há doze anos, não só na aparência, como também na falta de tato.
― Velho, disponho apenas de duas horas para liquidar o assunto.
― Também tenho pressa, vou direto ao assunto. Essa coisa de que o Lula tem carisma é a maior balela, alguém disse isso algum dia e os menos atentos repetem sem maiores avaliações. Quem tem carisma já nasceu com ele, não existe loja onde se possa comprar carisma. Já imaginou alguém se dirigir ao balcão da loja e dizer para o balconista: “Por favor, eu quero um milhão de reais de carisma”. Outro com mais recursos compraria três milhões de carisma. E o pessoal que se beneficiou do esquema que sangrou a Petrobras? Sem dúvida os participantes da quadrilha seriam os seres mais carismáticos do Brasil. Dinheiro não faltaria.
― O Lula ganhou duas eleições seguidas. ― Argumentei.
― Sei disso, mas antes perdeu quatro. A primeira, em 1982, para o Franco Montoro ao Governo de São Paulo e depois se sucederam três derrotas para a Presidência da República, nenhum candidato carismático perde quatro eleições em seguida. Em 1989 concorreu pela primeira vez à Presidência da República e perdeu no segundo turno para o Collor, outro calouro almejando o cargo. Collor quando começou a campanha tinha traço nas pesquisas, foi subindo e conseguiu a oportunidade de enfrentar o Lula no embate decisivo e o que o Lula conseguiu? Foi triturado no último debate.
O Velho esvaziou a tulipa de um só gole e pediu uma nova ao garçom. Perguntou se eu queria outra tulipa, eu fiz sinal negativo com a cabeça e ele continuou:
― Nova eleição presidencial em 1994, adversário Fernando Henrique. Lula foi para casa no primeiro turno. No primeiro turno… haja carisma… Não se deu por vencido e, novamente, em 1998, voltou a enfrentar Fernando Henrique e o que aconteceu? Perdeu novamente no primeiro turno.
― Bem… depois disso, em 2002 e em 2006 conseguiu se eleger. Por que venceu?
― Comecemos por 2002. O segundo mandato de Fernando Henrique terminou de forma melancólica, dificilmente qualquer candidato do PSDB seria eleito. Esse quadro, somado ao desgaste exacerbado da classe política de um modo geral, acabou jogando a Presidência da República no colo do PT, afinal era o partido que trazia um discurso de moralização da política (?), o que ia ao encontro dos anseios do povo. Se ao invés do Lula fosse outro candidato como, por exemplo, José Dirceu, o partido faria o Presidente da República da mesma forma. Mesmo assim e com toda a antipatia do opositor José Serra houve segundo turno.
― E a reeleição?
― Nós já concordamos que não há dinheiro que compre o carisma, mas dinheiro pode criar um personagem e muito dinheiro pode direcionar a sua aplicação no sentido de carrear votos. Um esquema foi montado para o PT se perpetuar no poder e a Operação Lava-Jato tem mostrado isso. Foi construído o Personagem Lula: o Lula vestindo ternos de grife, barba muito bem aparada, cabelo em ordem, gestos e palavras treinados por marqueteiros ― o Lula paz e amor ―, nada que lembrasse o Lula dos antigos comícios do sindicato e a sua agressividade. O Lula verdadeiro, sem maquiagem, o do palavrão, o do chamamento dos seguidores para o embate nas ruas, sem produção e sem direção, sem que as palavras fossem colocadas em sua boca, nós revimos agora, depois da condução coercitiva. Muito dinheiro levou a campanha aos recantos mais pobres e longínquos e distribuiu benesses para muita gente e, ainda assim, em 2006, venceu novamente segundo turno.
De repente, o Velho levantou-se e disse:
― Fui. Dei de bandeja o seu novo post, pode usá-lo integralmente. Ah… ia esquecendo, paga a conta por favor.
E lá se foi o Velho. Se vou reencontrá-lo, não sei. Na volta para casa, ainda envolvido com a conversa, imaginei um teatro vazio, a cortina fechada, a plateia já voltando aos lares, os atores desolados nas coxias após receberem vaias monumentais, a claque, paga para aplaudir, decepcionada e chorando na rua, enfim, o caos.
Como havia gravado a conversa com o Velho, ao chegar em casa a transcrevi “ipsis litteris”. Dou aos amigos de presente.

DESCONSTRUINDO LULA

O primeiro post do blog deste site, ainda em construção, já estava alinhavado quando fui surpreendido pelo desconexo discurso do ex-presidente Lula ao deixar as dependências da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas em São Paulo. Não resisti e resolvi deixar a matéria iniciada para outra oportunidade. A fala de Lula manteve a estrutura dos incontáveis discursos de natureza política que nos massacra há vários anos. Talvez por não conseguir se defender efetivamente das graves acusações que para nós, que não necessitamos de provas formais para tirar conclusões, estão evidentes, enveredou pelo caminho da conhecida biografia que remonta à sua infância pobre até ao delírio de querer nos fazer crer que os governos petistas erradicaram a pobreza no país. O que isso tem a ver com as investigações que estão em curso? É difícil não ficar chocado por tamanha desfaçatez. Lula partiu para agredir a justiça, a imprensa e as elites sem sequer esboçar uma defesa lógica com relação aos crimes que estão sendo investigados.

As elites… Há alguém mais representativo da elite do que o ex-presidente? Levando um padrão de vida que é negado à esmagadora maioria do povo brasileiro, tem o desplante de tentar iludir o povo com assertivas que não correspondem à realidade. A figura humilde que se esforça para passar é destruída por fatos irrefutáveis demonstrados nas atitudes tomadas na sua trajetória, como por exemplo, o luxuoso avião presidencial, que mais parecia uma exaltação ao ego e que foi adquirido com dinheiro público no exterior em detrimento da indústria nacional, que emprega trabalhadores tão brasileiros quanto ele. Nessa mesma linha de raciocínio, fixemo-nos no próprio discurso político tema desta matéria: a bravata das palestras, ainda em investigação na Operação Lava-Jato, tema no qual o ex-presidente se coloca no mesmo patamar de Bill Clinton e acima de notórios nomes da política internacional. Não tenho nada a ver com a megalomania de Lula, o que peço é coerência, se ele não pertence à elite, ao contrário, é um ser humano preocupado com a pobreza, como se vangloria de cobrar altíssimas somas para “ensinar” alguma coisa, se é que tem alguma coisa boa a “ensinar”, em países de extrema pobreza?

Ataques à justiça e à imprensa só podem ser motivados pela intenção de desestabilizar as instituições. Esses dois segmentos estão sendo os baluartes do momento histórico que estamos vivendo. Sem as investigações profundas da Polícia Federal, sem a atuação do Ministério Público, sem a abnegação e competência do juiz Sérgio Moro e sem a cobertura completa da imprensa, não teríamos desbaratado a maior quadrilha que está levando o Brasil ao naufrágio. Confesso que fui dormir preocupado com o chamamento dos militantes para a sua defesa, tal o grau da histeria do orador e da plateia. Há não muito tempo soubemos pela imprensa de que Lula ameaçou utilizar o “exército do Stédile” se necessário. É preciso que fique claro de que só existe um exército, o Exército Brasileiro, não existe exército do MST, da CUT ou da UNE, isso é muito grave. A histeria me fez lembrar de Hitler e de Stalin e dos horrores do nazismo e do comunismo. A história nos mostra como a histeria coletiva é perigosa.

Nada contra a militância ir se manifestar nas ruas, desde que não sejam ultrapassados os limites da ordem e que não sejam usados métodos de truculência. Fui dormir preocupado. Em princípio, achei que o teor do discurso tinha como origem o desespero de um investigado que não afasta a possibilidade de ser condenado. Entretanto, hoje, quando acordei, fiquei em dúvida entre o discurso consciente de quem elabora uma tática de defesa ou se Lula realmente acredita naquilo que diz para a nação. Será que ele acredita mesmo que erradicou a pobreza no Brasil? Será que ele se julga o mais importante palestrante do mundo? Será que está convencido de ter sido o melhor presidente? Será que ele acha que tem direito a tudo que usufrui hoje, mesmo que tenha sido ofertado por empreiteiras, apesar de ter sido o maior inimigo das empreiteiras quando era da oposição? Se está enquadrado na segunda hipótese é caso para tratamento médico.

Enfim, chegamos a um ponto em que não dá mais para ficar em cima do muro. Quem acredita que as instituições brasileiras estão cumprindo um papel importantíssimo para a construção de um novo país precisa ir às ruas no dia 13 de março, não para confrontar, mas para expressar o apoio, de forma civilizada, àqueles que estão trabalhando no sentido de punir os responsáveis pelos crimes que forem comprovados. Não podemos aceitar que queiram ganhar no grito. É difícil entender como algumas pessoas, mesmo tendo conhecimento da magnitude do desvio do dinheiro e da destruição da economia, ainda consigam ter a coragem de defender os responsáveis por esse verdadeiro caos. Isso não é normal. Ainda bem que esse grupo representa a minoria, apesar de ser mais barulhento e truculento. Respeitar opiniões diferentes deve ser incentivado, entretanto apadrinhar a vilania é coisa muito difícil de aceitar.